Lembram-se da pequena Bá do blog "Crónicas de uma mãe atrapalhada." Pois,ela cresceu! E agora exigiu que existisse também a sua versão de filha num blog a quatro mãos.

02
Jun 18

 Ando inspirada na poesia, olho para a minha filha e pergunto-lhe a ela e a mim quando é que ela cresceu tanto e eu não percebi. E de repente vem-me à memória este belíssimo poema  de um dos meus poetas portugueses preferidos “O poema á mãe” de Eugénio de Andrade.

 

 

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

 

Trapalhada feita por Alfa às 17:04

Lindissimo.
Maria Grace a 2 de Junho de 2018 às 19:12

Obrigada pela visita. De facto Eugénio de Andrade tem poemas belíssimos. Aina bem que gostou também acho este poema lindíssimo.
Alfa a 2 de Junho de 2018 às 19:21

Belíssimo momento
P. P. a 2 de Junho de 2018 às 19:51

Obrigada. Eu adoro mesmo este poema e outros de Eugénio de Andrade.
Alfa a 2 de Junho de 2018 às 20:50

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